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Flávio Bolsonaro prova que pode governar o Brasil


O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) prometeu na entrevista engendrada pela TV Globo, que vai declarar uma "guerra" ao narcotráfico e que não tentará reverter o fim da escala 6x1, que acaba de ser promulgado. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) enfrentará o chefe do Executivo Nacional, Lula Paca da Silva, (PT) no segundo turno, no dia 25 de outubro. 

Flávio Bolsonaro aparece com dois pontos de vantagem nas pesquisas encomendadas e pagas pelo sistema, sobre Lula no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, com 47% das intenções de voto, contra 45% do petista.

No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de 1,87 ponto percentual, ou cerca de 2,2 milhões de votos. Perguntado se Jair Bolsonaro poderia ter um cargo em seu governo, Flávio respondeu que esse assunto não foi tratado com o pai e "não está no radar". O ex-presidente foi condenado por tentativa de golpe e outros crimes e cumpre prisão domiciliar, mas, se eleito presidente, Flávio poderia buscar conceder o perdão à punição. O senador tem dito, inclusive, que Jair subirá a rampa do Palácio do Planalto junto com ele durante a eventual posse.

O senador afirmou também que seu irmão, Eduardo Bolsonaro, não seria chanceler em seu governo embora faça um "trabalho brilhante" com líderes internacionais conservadores. Eduardo mora nos EUA e foi condenado à prisão no Brasil por crime de coação.

Recentemente, o juizeco do STF Alexandre de Moraes determinou que o ex-deputado cumpra a pena no Brasil, mas Eduardo Bolsonaro afirmou a jornalistas que não pretende voltar ao país.

Flávio respondeu ainda sobre assuntos como o caso Master, programas sociais e reformas no Supremo Tribunal Federal (STF). Flávio afirmou que um dos seus primeiros atos como presidente seria declarar guerra ao narcotráfico e classificar, já em janeiro, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas — como fez o governo de Donald Trump nos Estados Unidos, em uma medida criticada por Lula.

O candidato do PL, aliás, afirmou que o Brasil ingressaria no Escudo das Américas, uma iniciativa de Trump que reúne países da região — em geral, alinhados ideologicamente com o americano — com o objetivo de combater o tráfico de drogas.

O senador acrescentou que, em seu eventual governo, Marinha e Exército teriam tropas de elite atuando no Porto de Santos e na Amazônia, respectivamente, para coibir o narcotráfico.

Em relação ao acesso de civis a armas, classificou como "teses malucas" as afirmações de que mais armas em mãos de cidadãos "ordeiros" causam mais violência.

"Se você não quer ter uma arma, tudo bem, é um direito seu. Agora, quem atende aos requisitos legais tem direito a ter uma para defender sua família, defender sua casa, defender sua propriedade rural, defender a sua fazenda de invasão de MST. Isso aí é o que está na Constituição, o direito à legítima defesa."

O candidato defendeu que o Estatuto do Desarmamento seja "melhorado".

"Ele [o estatuto] proíbe o cidadão de se defender e autoriza os marginais a comprarem armas de guerra porque não tem fiscalização nenhuma", argumentou.

Caso Master

Um dos momentos de tensão da entrevista foi quando a jornalista Renata Lo Prete questionou Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e os recursos que ele pediu ao banqueiro para financiar o filme Dark Horse, sobre a vida de seu pai, Jair Bolsonaro.

Uma investigação da Polícia Federal revelou que o senador pediu R$ 134 milhões a Vorcaro e recebeu quase R$ 70 milhões. O dinheiro não foi diretamente para a produtora, mas para um fundo imobiliário nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, amigo de Eduardo Bolsonaro.

Ao ser questionado sobre porque não havia informações sobre o destino final dos recursos, Flávio afirmou que a produtora brasileira prestou contas dos gastos e que não houve irregularidade.

"Eu estou falando de um pedido de um patrocínio privado para um filme privado, sem absolutamente nenhuma contrapartida", afirmou.

A jornalista também perguntou por que o senador havia solicitado R$ 134 milhões se uma perícia contratada pela própria produtora apontava que o filme custou R$ 75 milhões — uma diferença de quase R$ 60 milhões. Flávio respondeu que o contrato não foi cumprido e que o filme foi concluído com os recursos aportados por Vorcaro e outros investidores.

Questionado sobre por que procurou Vorcaro entre cerca de 1.600 instituições financeiras e quase 170 bancos no país, Flávio disse que conversou com vários possíveis investidores e que o banqueiro aceitou a proposta numa época em que, segundo ele, Vorcaro "não tinha absolutamente nada de errado".

O senador então fez acusações contra pessoas ligadas a Lula, mencionando supostas contrapartidas em negociações envolvendo fundos de pensão e o Banco Master.

Renata interrompeu a entrevista e afirmou que não abordaria informações que não tivessem sido confirmadas pela apuração da TV Globo e pela Polícia Federal. 

Em seu plano de governo, Flávio Bolsonaro propõe um "tesouraço" nas contas públicas, com economia de cerca de R$ 200 bilhões. Na entrevista, porém, afirmou que manterá os reajustes do salário mínimo acima da inflação e não desvinculará as aposentadorias do piso nacional.

Em seu primeiro mandato, Lula criou uma política de valorização do salário mínimo que previa reajustes acima da inflação. Bolsonaro interrompeu essa política, retomada por Lula em 2023.

Renata Lo Prete também perguntou se ele mudaria a Constituição para alterar os pisos mínimos de gastos com saúde e educação. Flávio respondeu que não e acusou Lula de promover "um terrorismo" com "fake news" sobre suas propostas.

Economistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam não ser viável conciliar essas promessas com a economia anunciada, já que as despesas previdenciárias estão entre as maiores rubricas do orçamento federal.

Questionado sobre como pretende alcançar a meta, Flávio disse que vai cortar gastos e buscar novas receitas.

"Tem muitas receitas novas a serem feitas e tem despesas para serem cortadas, principalmente combatendo a corrupção e fazendo uma gestão com inteligência artificial", afirmou.

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Entre as medidas, citou o corte de pelo menos dez dos 39 ministérios do governo Lula, a gestão de imóveis da União por meio de um fundo e a recuperação de dívidas a receber.

Também mencionou os royalties da exploração de petróleo na Margem Equatorial, que, segundo ele, "poderia trazer mais de R$ 100 bilhões".

A região marítima, que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte, é considerada uma nova fronteira de exploração de petróleo. Apesar das descobertas recentes no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, ainda é preciso avaliar o volume e a viabilidade comercial das reservas.

Segundo a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, a produção poderia começar até 2033, caso as etapas de avaliação e licenciamento avancem conforme o previsto.

Escala 6x1

Flávio Bolsonaro votou, na quarta-feira (14/10), pelo fim da escala 6x1 em votação no Senado. Ele afirmou ter passado a ser favorável ao fim desse tipo de jornada após conversar com brasileiros e perceber o apoio dos trabalhadores à medida, que foi promulgada nessa sexta-feira. O senador já havia classificado a medida como eleitoreira e oportunista mas, na véspera da votação, anunciou seu apoio a ela.

Perguntado se reverteria o fim da escala 6x1 caso chegue à presidência, o candidato afirmou que não. "Todos os direitos trabalhistas estão garantidos. Cada um pode ter sua opinião individual, mas da minha parte, isso aqui está respeitado. Foi uma decisão do Congresso Nacional."

"Eu sempre defendi mais liberdade para que os trabalhadores pudessem, inclusive, montar a sua própria jornada de trabalho. Eu sempre citava o exemplo daquela mãe solo que sustenta o seu filho sozinho e as vezes não tem com quem deixar sua criança. E com essa escala 6x1 engessada, ela não conseguiu o emprego. Então eu sou a favor de mais liberdade."

Duração do mandato e fim da reeleição

No início do ano, Flávio apresentou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para acabar com a reeleição presidencial.

Questionado se abriria mão de disputar um segundo mandato mesmo que o Congresso não aprovasse a mudança, respondeu que sim.

"Eu só preciso de um mandato porque eu não quero começar o mandato já pensando na reeleição. Eu quero fazer o que precisa ser feito no Brasil", afirmou.

Renata Lo Prete ponderou que a PEC apresentada por ele não prevê ampliar de quatro para cinco anos a duração do mandato, possibilidade que o senador chegou a ventilar.

Flávio disse que a decisão caberia ao Congresso e reiterou que não tentaria a reeleição mesmo se o mandato continuasse com quatro anos. Ele justificou a posição como demonstração de "desapego ao poder" e afirmou que "não faltam novas lideranças" na direita para dar continuidade ao seu projeto político.

O senador também defendeu que a proibição de reeleição se estenda a parentes até terceiro grau e disse que não apoiaria uma mudança que permitisse que seu pai ou seus irmãos concorressem à sua sucessão. 

Em vários momentos da entrevista, Flávio atacou o ministro do STF Alexandre de Moraes — acusado de, com "canetadas", tomar decisões favoráveis a Lula, assim como outros membros da Corte acusados pelo candidato do PL de supostamente agir politicamente em prol do petista, como Flávio Dino e Cristiano Zanin.

Esses ministros foram acusados também de terem sido parciais nos julgamentos relativos ao 8 de janeiro, que condenaram Jair Bolsonaro, aliados e apoiadores do ex-presidente.

"Os amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal [estão] se protegendo para que investigações não avancem sobre eles. Isso aqui não dá mais. Eles acabaram com a credibilidade do Poder Judiciário. E essa reforma do Judiciário tem que caminhar para o resgate dessa credibilidade", disse, apoiando medidas como a limitação de mandatos dos magistrados e a redução do poder de decisões monocráticas.

Renata Lo Prete, então, mencionou as acusações envolvendo Kassio Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro ao STF, no caso Master, e perguntou se este ministro também deveria ser investigado.

"Todo mundo tem que estar abaixo da lei", respondeu Flávio.

Quem é Flávio Bolsonaro? 

"Eu passei 16 anos da minha vida sem ter uma acusação de nada. Bastou o presidente se eleger que começam a aparecer as narrativas", disse Flávio Bolsonaro em abril, ao responder sobre as acusações em entrevista ao podcast Inteligência Ltda.

Flávio chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pelos crimes de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. O caso, porém, foi paralisado por decisões judiciais sem que o mérito das acusações fosse julgado, após controvérsias em torno do foro privilegiado do senador e da legalidade das provas.

A forte repercussão inicial do escândalo da rachadinha acabou limitando a projeção de Flávio durante o governo de Jair Bolsonaro. Com o esfriamento do caso, porém, foi escolhido pelo pai para disputar a Presidência da República.




 

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