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PF apreende planilha de políticos que recebiam dinheiro de Ciro
Raimundo Neto eCiro Nogueira: o Anjo do pau ôco

A Polícia Federal apreendeu uma planilha física atribuída a Raimundo Neto Nogueira, irmão do senador Ciro Nogueira, conhecido nos bastidores políticos como “Anjo”, contendo cerca de 247 nomes ligados ao meio político e anotações que somariam aproximadamente R$ 800 mil em supostos pagamentos realizados em espécie. 

O material, segundo informações obtidas pela reportagem, era preenchido manualmente, com registros feitos à caneta, e ficava organizado em uma pasta considerada inseparável da rotina do Anjo. A documentação acompanhava o empresário diariamente no trajeto entre casa e escritório e agora está sob análise da Polícia Federal. 

Nos bastidores, o Anjo era visto como um dos homens de maior confiança do grupo político de Ciro Nogueira. Ganhou esse apelido de lideranças políticas, vereadores, prefeitos e operadores que recorriam a ele quando precisavam de ajuda financeira ou apoio operacional em campanhas e articulações regionais. 

Políticos experientes avaliam reservadamente que os nomes descritos na planilha devem se referir, em grande parte, a pequenas lideranças e vereadores espalhados pelo interior do Piauí. A leitura predominante nos bastidores é que a PF não deverá concentrar esforços diretamente nesses nomes, já que o foco principal da investigação está na estrutura financeira maior investigada no chamado Caso Master. 

A operação, autorizada pelo ministro André Mendonça, apura suspeitas de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e favorecimentos ligados ao empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. 

Dentro da investigação, o Anjo passou a ser apontado como peça estratégica na engrenagem financeira atribuída ao grupo político de Ciro Nogueira. A PF também investiga uma operação empresarial envolvendo uma empresa administrada por ele, que teria adquirido 30% da Green Investimentos S.A. por R$ 1 milhão, embora essa participação estivesse avaliada em aproximadamente R$ 13 milhões. 

Reservado e avesso à exposição pública, o Anjo é descrito por pessoas próximas como alguém que sempre detestou exercer o papel de operador financeiro das campanhas de Ciro, apesar da relação de confiança absoluta entre os dois. 

Durante o auge da Lava Jato e da atuação do então juiz Sergio Moro, entre 2017 e 2018, o Anjo teria deixado o Brasil e ido morar em Miami, nos Estados Unidos, com a família. O retorno teria ocorrido apenas depois do enfraquecimento político da operação. 

Fora da política, o Anjo é visto como apaixonado por duas coisas: o Clube de Regatas do Flamengo e shows internacionais. Pessoas próximas afirmam que ele costumava viajar para acompanhar finais do clube carioca e grandes apresentações internacionais. 

Agora, porém, o cenário é completamente diferente. 

Desde a operação da PF, o Anjo permanece praticamente isolado em casa, com a família, recebendo apenas advogados de confiança em reuniões reservadas. Pessoas próximas relatam que ele está profundamente abalado emocionalmente e que tem chorado frequentemente diante da situação que enfrenta. 

A imposição da tornozeleira eletrônica teria provocado um impacto devastador. Para aliados, trata-se de um sofrimento “indescritível” para alguém conhecido justamente pela discrição e pela atuação silenciosa nos bastidores da política. 

Nos bastidores, aliados afirmam ainda que o senador Ciro Nogueira teria prometido ao Anjo trabalhar para conseguir retirar a tornozeleira eletrônica até o final do mês de maio. 

A decisão judicial também proibiu qualquer contato entre o Anjo e Ciro Nogueira, além de impor restrições de deslocamento e acesso às empresas investigadas. 

Nos bastidores, a avaliação é de que a estrutura política ligada a Ciro sofrerá um verdadeiro “apagão operacional” nas próximas semanas. Interlocutores ligados ao grupo calculam que a reorganização financeira pode levar pelo menos 45 dias. 

A equipe ligada ao Anjo também teria sido esvaziada. Parte passou a trabalhar em home office e muitos colaboradores teriam ficado sem funções práticas após a interrupção das chamadas “missões” políticas e operacionais. 

Outro ponto que chama atenção é a separação das estratégias jurídicas. O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o polêmico Kakay, primo do senador Marcelo Castro, estaria concentrado diretamente na defesa política e jurídica de Ciro Nogueira em Brasília, enquanto o Anjo estaria sendo defendido por advogados de sua confiança pessoal, em uma atuação separada. 

Nos bastidores políticos, cresce ainda a percepção de que a campanha de Ciro Nogueira em 2026 deverá ficar muito mais cara. Interlocutores próximos estimam que a estrutura eleitoral pode ultrapassar R$ 300 milhões. 

A avaliação é que o aumento não estaria necessariamente ligado ao crescimento dos repasses políticos, mas ao encarecimento da logística financeira, da circulação de recursos e das operações de campanha em meio ao monitoramento intenso da Polícia Federal e dos órgãos de controle. 

Com o Anjo fora do centro operacional e impedido judicialmente de manter contato com Ciro, aliados admitem reservadamente que o grupo enfrenta hoje uma das maiores crises internas de sua estrutura política nos últimos anos, podendo inclusive, sofrer uma decepção nas urnas e não se reeleger.

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