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Senador do dinheiro na cueca pode ser cassado



Senadores protestam contra a decisão monocrática do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo, de afastar o parlamentar flagrado com dinheiro na cueca. Determinação do magistrado será avaliada pelo plenário da Corte. No Congresso, cresce movimento para livrar o político

O Supremo Tribunal Federal (STF) julgará, na próxima quarta-feira, a ordem de afastamento do senador Chico Rodrigues (DEM-RR). O pedido de avaliação no plenário foi feito pelo ministro Luís Roberto Barroso, que determinou a suspensão do parlamentar na quinta-feira, um dia depois de o político ter sido flagrado com R$ 33,1 mil escondidos na cueca, durante busca e apreensão da Polícia Federal.

Segundo Barroso, embora esse tipo de decisão não dependa de confirmação do plenário da Corte, ele decidiu pedir que o colegiado analise o caso. Enquanto isso, cresce no Senado um movimento para livrar Rodrigues do afastamento e deixá-lo a cargo do Conselho de Ética da Casa.

Chico Rodrigues é suspeito de envolvimento num esquema de desvio de recursos públicos que deveriam ter sido aplicados no combate à pandemia em Roraima. Teriam sido desviados mais de R$ 20 milhões em emendas parlamentares. A PF afirmou ao STF ter indícios de que o senador cometeu crime de lavagem de dinheiro e de embaraço à investigação sobre a organização criminosa. A corporação ressaltou que, “caso o investigado não titularizasse o mandato de senador da República, dúvida não haveria acerca da sua imediata prisão em flagrante”.

Cabe ao Senado, agora, manter ou derrubar a decisão de afastamento de Chico Rodrigues. Mas, o próprio presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), tem agido para evitar a punição do parlamentar. Uma fonte ouvida pelo Correio, reservadamente, disse que, se depender da vontade de Alcolumbre, Rodrigues não será afastado nem terá o mandato cassado. Manter o senador no cargo seria uma forma de marcar posição contra interferências do STF na Casa.

Um vídeo publicado pelo senador Angelo Coronel (PSD-BA) nas redes sociais dá o tom do discurso de uma boa parcela dos parlamentares. “Como senador, não podemos aceitar a interferência de um Poder em outro. O Supremo Tribunal Federal, numa decisão monocrática, afasta o senador Chico Rodrigues. Este é um papel do Senado da República, é um papel do Conselho de Ética do Senado. Então, não podemos ficar calados vendo essa interferência do Supremo no Poder Legislativo, no caso, no Senado”, disse, na gravação. “Nós vamos juntar todos os senadores para que saiamos urgente com uma posição, chamar o senador Chico Rodrigues para o Conselho de Ética, para que ele possa se explicar, ou não, e, a partir daí, o Senado dá o veredito. Esse é o papel do Senado. Cassar ou não o mandato de um senador não é papel do Supremo Tribunal Federal.”

Cassação

Os partidos Rede e Cidadania protocolaram, ontem, no Conselho de Ética do Senado, pedido de abertura de processo de cassação do mandato de Chico Rodrigues. Entretanto, por conta da pandemia, o colegiado não foi instalado em 2020, e Davi Alcolumbre não está disposto a colocá-lo em funcionamento para analisar o caso do parlamentar.

Procurado pela reportagem, o senador Oriovisto Guimarães (Podemos-PR) não comentou a ordem judicial de afastamento de Chico Rodrigues, dizendo apenas que “o Conselho de Ética do Senado precisa agir com urgência”.

Após a divulgação dos fatos relacionados à investigação sobre Chico Rodrigues, o presidente Jair Bolsonaro retirou o parlamentar da vice-liderança do governo no Senado. Na quinta-feira, o senador postou um vídeo em que afirma que deixou a função de vice-líder para “aclarar os fatos e trazer à tona a verdade”. Ele não comentou a decisão do ministro do STF.

“Acredito na verdade. Estou confiante na Justiça e digo que, logo, tudo será esclarecido e provarei que nada tenho a ver com qualquer ato ilícito de qualquer natureza. Vou cuidar da minha defesa e provar minha inocência”, assegurou Rodrigues, que encerrou o vídeo dizendo que “Deus não dorme”.

Vídeo mantido em sigilo

Na decisão em que determinou o afastamento do senador Chico Rodrigues (DEM-RR), o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, ordenou que apenas um dos vídeos produzidos na diligência que encontrou R$ 33,1 mil na cueca do parlamentar seja juntado aos autos da investigação sobre desvios de recursos públicos destinados ao combate à pandemia de covid-19. A filmagem diz respeito à primeira revista corporal feita no senador na Operação Desvid-19, após os agentes suspeitarem do “grande volume retangular na parte traseira das vestes” do parlamentar. No entanto, uma segunda gravação deverá ser mantida em “cofre da própria Polícia Federal, em absoluto sigilo”, segundo a determinação de Barroso. A medida se dá em razão de o registro exibir “demasiadamente, a intimidade do investigado e não produzir acréscimo significativo à investigação”. “Se comprovada a culpabilidade do investigado, estará justificada a sua punição, mas não sua desnecessária humilhação pública”, ponderou o relator da Desvid-19.

Casa de "R$ 150 mil" no Lago Sul

Alvo da Polícia Federal por suspeita de envolvimento em um esquema de desvio de recursos destinados ao combate à pandemia do novo coronavírus, o senador Chico Rodrigues (DEM-RR) declarou o valor de apenas R$ 150 mil para uma casa localizada no Lago Sul, área nobre de Brasília e que alguns dos terrenos mais caros da capital.

A informação foi repassada por Chico Rodrigues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), durante as eleições de 2018. O imóvel está localizado na QL 25 do Lago Sul. O valor declarado é bem inferior ao comumente negociado no mercado imobiliário.

O valor médio de uma casa com três dormitórios na localidade é de R$ 1,99 milhão, de acordo com o Conselho Regional dos Corretores de Imóveis. A residência foi vendida pelo parlamentar no ano passado. No entanto, mesmo tendo outros endereços em seu nome, em Brasília, ele ocupa imóvel funcional no DF. Na mesma declaração, foram relacionados dois escritórios no Setor Hoteleiro Norte, sendo o primeiro no valor de R$ 18.165 e o segundo, de R$ 34.270.

Filho é suplente do senador

Afastado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) do cargo de senador, Chico Rodrigues (DEM/RR) tem o filho, Pedro Arthur Rodrigues, como suplente. Filiado ao mesmo partido do pai, o administrador, de 41 anos, não conta com uma carreira política de longa data, tendo solicitado o registro da candidatura a suplente em 2018. Ele não chegou a concorrer a nenhuma eleição anterior. Ainda que o vínculo carregue um tom de nepotismo, a medida não é considerada ilegal.

Na ação de busca e apreensão da qual Chico Rodrigues foi alvo — no âmbito da Operação Desvid19, que apura desvios na casa de R$ 20 milhões em emendas parlamentares —, agentes da Polícia Federal chegaram a fazer revista, também, na casa de Pedro Arthur, mas nenhum indício de irregularidade foi encontrado.

Para que Pedro Arthur assuma a vaga, no entanto, será necessário que Chico Rodrigues seja afastado por mais de 120 dias, de acordo com as regras do regimento interno do Senado. Por enquanto, a determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) é de afastamento do parlamentar por 90 dias e, portanto, durante esse período, a cadeira ficará vaga, até que haja uma nova decisão.

Em 2013, o Senado aprovou a proposta de emenda à Constituição (PEC) 287/13, que prevê a escolha de apenas um suplente, não podendo ser cônjuge ou parente até segundo grau. A matéria, no entanto, está parada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara.

PF faz outra operação em Roraima

A Polícia Federal deflagrou, ontem, a segunda fase da Operação Godfather, que apura supostas fraudes de mais de R$ 14 milhões em contratos da Secretaria de Saúde de Roraima entre agosto de 2017 e abril de 2019. Entre os alvos da ofensiva está o ex-deputado Abel Mesquita Jr., presidente do DEM no estado — mesmo partido do senador Chico Rodrigues, flagrado pela PF com dinheiro na cueca. Abel Jr. é suspeito de “exercer ingerências” na Secretaria de Saúde, “condicionando pagamentos que deveriam ser feitos pelo órgão à empresa do esquema ao recebimento de propinas”. Agentes cumpriram quatro mandados de busca e apreensão em Boa Vista. As ordens foram expedidas pela 4ª Vara Federal de Roraima. Segundo a PF, um procurador do estado, que receberia valores do esquema, também é alvo das medidas.

 

 




 







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