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Os custos da violência!



Gangues de Nova York, de 2002, dirigido por Martin Scorsese, retrata o clima de violência e miséria vivido nos Estados Unidos na segunda metade do século XIX. Baseado no romance homônimo de Herbert Asbury, de 1928, o filme, estrelado por Cameron Diaz, Daniel Day-Lewis e Leonardo di Caprio, evidencia a atuação das gangues criminosas que atuavam na cidade e as disputas étnicas decorrentes especialmente da imigração irlandesa que derramava levas de depauperados em uma cidade despreparada para recebe-los. Para além do caráter melodramático típico das produções hollywoodianas, Gangues de Nova York nos permite ver uma América que sentia os impactos da Guerra de Secessão (1861-1865) e parecia fadada à corrupção e ao caos.

Um dos períodos mais violentos da história da América, contudo, ocorreu já no século XX, durante a vigência da Lei Seca, entre 1920 e 1933. Por mais de uma década, a Lei Seca proibiu a produção, o transporte e a comercialização de bebidas alcóolicas nos Estados Unidos.  As razões para a decretação da lei foram inúmeras. Dentre elas, podemos destacar a busca da burguesia industrial em buscar aumentar a eficiência dos trabalhadores, frequentemente acusados de baixa produtividade laboral em função do consumo elevado de álcool, e seu combate sistemático às organizações sindicais, muitas vezes ligadas a grupos de imigrantes direta ou indiretamente envolvidos no comércio de bebidas.

No rasto da Lei Seca, fortaleceram-se os grupos mafiosos ligados à imigrantes italianos e outras tantas quadrilhas de gangsters. Dentre os mafiosos de origem italiana, estão verdadeiras lendas do crime como os nova-iorquinos Al Capone (1899-1947) e “Bugsy” Siegel (1906-1947). Houve (como ainda existem) inúmeras outras gangues nesse período da história americana, das quais uma das mais famosas foi liderada pelo casal Bonnie e Clyde, que atuou espetacularmente na primeira metade dos anos 1930 e foi imortalizado por Arthur Penn, em 1967, no filme Bonnie e Clyde, estrelado por Warren Beatty e Faye Dunaway.

Não foi fácil superar este estágio de anomia social, nem foi rápido fazê-lo. Por muitas décadas o governo e a sociedade americana combateram as formas mais primárias e visíveis da violência, sendo certo que, ainda hoje, esse combate ainda continua.

O exemplo dos Estados Unidos nos permite olhar para o Brasil contemporâneo. De um prisma simbólico, imaginário, não é difícil migrar de Nova York para o Rio de Janeiro, cidade no qual os custos da violência tornam-se, a cada dia, mais e mais insuportáveis. Mas afinal, quais os custos sociais e econômicos da violência? De um ponto de vista macro, há custos diretos e custos indiretos. Do ponto de vista direto, há que se computar o aumento nos gastos com segurança e prevenção ao crime, quer bancados pelo Estado, quer custeados pelos particulares, bem como o agigantamento do sistema de Justiça. Do ponto de vista indireto, há que se computar a perda de investimentos industriais e comerciais, a diminuição das atividades produtivas, o rebaixamento imobiliário, a proletarização acentuada da sociedade e o atrofiamento de atividades econômicas como o comércio e o turismo. Todos esses custos são nocivos ao Rio de Janeiro, em particular, e ao Brasil como um todo, pois, infelizmente, a violência não está restrita à ensolarada capital carioca, nem tem nela seu palco privilegiado.

Contudo, nessa contabilidade hedionda, particularmente no que tange aos custos indiretos, há diversos outros fatores que não podem ser negligenciados. Dentre eles estão o custo ao atendimento hospitalar e psicoterápico das vítimas da violência, o aumento da sensação de insegurança e uma certa banalização do status quo, ou seja, um certo sentimento de que “as coisas são assim mesmo” e que “já não há mais o que fazer”. É justamente sobre esses aspectos simbólicos e de difícil contabilização que gostaríamos de nos fixar.

No contexto da intervenção federal em curso há quase seis meses no Rio de Janeiro, tem sido comum assistir ao cercamento de comunidades faveladas e ao aviltamento dos direitos básicos do cidadão pobre, frequentemente submetido a revistas degradantes e a processos intimidatórios de identificação. Muitos membros das elites, e mesmo das camadas médias, naturalizam esse tratamento aviltante e indigno, como se não houvesse alternativa ou como se as populações faveladas já estivessem acostumadas a esse tratamento, já estivessem “imunizadas” contra os seus efeitos. Nada mais falso e preconceituoso!

O sofrimento das populações faveladas submetidas à violência crua e extrema é tão grande (ou quiçá até maior) quanto aquele vivenciado pelas camadas médias sistematicamente vitimadas por assaltos, latrocínios ou homicídios. São todos igualmente humanos! Mas é indubitável que a violência tem um custo indireto acentuado entre as populações marginalizadas. Afinal, como exigir que uma criança se dedique tranquilamente aos deveres de matemática após horas de tiroteios na favela, com balaços tendo atingido seu barraco? Como imaginar que um trabalhador possa produzir regularmente no seu dia de trabalho quando passou a noite acuado em seu casebre por mais uma operação policial? Como imaginar que uma pessoa possa dedicar-se ao trabalho, à casa, aos filhos e a si mesma quando coexiste em um ambiente de miséria, violência, corrupção e caos?

Esses são custos indiretos frequentemente invisibilizados pelas estatísticas da violência. Nelas, também não estão os custos à democracia. A violação sistemática dos direitos das populações faveladas, pobres, negras, mestiças e periféricas é um atentado cotidiano à democracia e ao Estado de Direito. Violações flagrantes à Constituição, às normas de direito internacional e à própria legislação doméstica, inclusive aquela de natureza penal, impactam negativamente a economia e a vida em sociedade, é verdade. Mas também impactam a vida política e comunitária, com custos insuportáveis para os seres humanos diretamente envolvidos.

Por isso, pânico, depressão e fobias estão se tornando cada vez mais frequentes em cidades como o Rio de Janeiro, Fortaleza, Vitória ou Teresina, onde a cada dia é insuportável viver. Essas “doenças da alma” já estão entre as mais danosas e custosas do século XXI. Como nos Estados Unidos, o cinema também denuncia e nos permite refletir sobre o duro cotidiano das cidades brasileiras. Filmes como Cidade de Deus, dirigido por Fernando Meirelles em 2002, ou Tropa de Elite, dirigido por José Padilha em 2007, mostram as entranhas do crime e nos fazem refletir. Mas como reflexão e ação devem andar juntas, a população do Rio de Janeiro e de todo o Brasil terá, nas eleições de outubro, uma boa chance para mudar os rumos do país. Por isso, sem prescindir das ações diretas, das manifestações de rua, e da vida sindical ou associativa, é fundamental que tenhamos em meta um Brasil melhor, menos truculento e mais voltado a promoção da cidadania, do desenvolvimento e da tutela sistemática dos Direitos Humanos. Essa é a nossa luta! Esse será o nosso voto! Um voto no Brasil!

Lier Pires Ferreira, professor do Ibmec/RJ e do CP2




 







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